Artigo
16/3/2012 - 10h23
16/3/2012 - 10h23
Sistema educacional é um importante instrumento a perpetuar a desigualdade
por Otaviano Helene*

A renda não se
concentra por um processo natural, como se nos quintais de alguns
nascessem, por natureza, frondosas árvores de dinheiro e nos quintais de
outros, raquíticos arbustos de moedinhas. A renda se concentra como
consequência de políticas explícitas que incluem o próprio sistema
econômico, a ausência ou não de reformas agrária e urbana democráticas, a
repressão dos ou o diálogo com os movimentos sociais organizados, as
alíquotas de impostos diretos e o combate ou não à sonegação, a
existência ou não de impostos sobre o patrimônio, entre várias outras.
Há
dois processos relacionados à educação que contribuem fortemente para a
perenização da concentração de renda: a renda das pessoas depende
fortemente da educação formal que receberam, e a educação das crianças e
jovens depende, também fortemente, de suas rendas familiares. A
combinação desses dois fatores faz com que nossa política educacional
seja um dos principais fatores de concentração de renda e de reprodução
das desigualdades.
Um dos principais fatores responsáveis pela
exclusão escolar é a renda. Por exemplo, a participação dos estudantes
provenientes dos segmentos mais pobres da população cai
significativamente ao longo das séries escolares e praticamente a
totalidade das cerca de 30% das crianças que abandonam a escola antes do
final do ensino fundamental tem origem nos segmentos mais
desfavorecidos da população. Como a enorme maioria dessas crianças que
deixam a escola prematuramente não frequentou as classes de educação
infantil, a educação formal oferecida a elas restringe-se aos poucos
anos de escolaridade no ensino fundamental, em geral em escolas
precárias, com uma permanência diária abaixo das quatro horas e com
muitas “aulas vagas”. Resultado: os investimentos educacionais feitos em
favor dessa terça parte das crianças, cujos valores anuais são próximos
ao piso do Fundeb(2), não excederão, ao longo de toda a vida, alguns
poucos milhares de reais.
No outro extremo, entre os mais ricos, a
educação começa nos primeiros anos de vida e dura pelo menos duas
décadas, com valores mensais de investimento que superam os R$ 1 mil, ou
muito mais do que isso, se forem incluídos investimentos com educação
extraescolar (cursos de línguas, atividades esportivas, aulas
particulares, etc.). Ao longo de toda a vida, esses investimentos podem
superar centenas de milhares de reais.
Portanto, as desigualdades
na educação formal são enormes. E esses contingentes com enormes
diferenças educacionais, ao deixarem a escola, conviverão em uma mesma
sociedade. Ninguém pode ter dúvida do que acontecerá.
Em resumo,
nossas terríveis desigualdades econômicas e sociais entram nas escolas
pela porta da frente, com a conivência, apoio e subvenção explícita por
parte das autoridades municipais, estaduais e federais, fazendo com que
nosso sistema escolar trate de forma extremamente diferente os pobres e
os ricos. E, evidentemente, com o apoio total das elites econômicas,
para as quais as desigualdades não devem ser enfrentadas e superadas,
mas, sim, os desiguais devem ser combatidos quando ameaçam incomodar.
O
círculo vicioso renda-educação-renda se fecha uma vez que a renda de
uma pessoa depende fortemente de sua educação formal, tanto em termos
quantitativos quanto qualitativos, coisa que salta aos olhos(3). Cada
ano adicional de escolaridade de um trabalhador implica um aumento de
renda da ordem de 15%, em média. Além dessa dependência da renda com
relação ao número de anos de estudo, há também uma dependência em face
da qualidade da educação recebida e, novamente, esta também depende
fortemente da renda familiar dos estudantes.
Portanto, nosso
sistema educacional é um importante instrumento a perpetuar a
desigualdade, garantindo que ainda permaneceremos por longo tempo entre
os países mais desiguais do mundo.
Outro aspecto perverso da
desigualdade do nosso sistema educacional é o “desperdício” de pessoas.
Como a desigualdade exclui das escolas enormes contingentes
populacionais e grande parte dos não excluídos apresenta graves
deficiências, nossas possibilidades de desenvolvimento social, cultural e
do sistema de produção de bens e serviços são gravemente comprometidas,
uma vez que não podemos contar com a contribuição produtiva da maioria
dos nossos jovens, por mais dedicados, brilhantes e interessados que
pudessem vir a ser: eles já foram descartados.
Para construirmos
um país realmente republicano, precisaríamos romper essa situação e
criar um sistema educacional onde todos, independentemente da origem
social e econômica, sejam tratados de forma igualitária. Escolas com
infraestruturas adequadas, professores e educadores que sejam
remunerados adequadamente e instrumentos de gratuidade ativa(4) que
compensem os custos induzidos pela frequência à escola são fundamentais.
E
não há nenhuma limitação real e objetiva que nos impeça de construir
uma escola igualitária e democrática: se excluímos crianças e jovens
prematuramente das escolas e as condenamos a uma vida adulta com más
remunerações, é uma opção política ditada pelas elites, que não abrirão
mão, por bem, de nenhum de seus privilégios, por mais que eles possam
ser danosos para a sociedade.
Notas
(1) O índice de Gini é um dos indicadores mais amplamente adotados para quantificar a distribuição de renda.
(2)
O Fundeb, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de
Valorização dos Profissionais da Educação, corresponde a um valor
mínimo de investimento educacional da ordem de R$ 200 por mês e por
estudante (valores de 2012). Estados cujos investimentos estão abaixo
desse valor recebem uma complementação da União.
(3)
Há exceções, obviamente, e algumas pessoas com pouca escolarização têm
sucesso profissional e mesmo altas rendas. Entretanto, a regra seguida
de forma majoritária é que a renda aumenta com o grau de escolarização.
Por causa das poucas exceções, muitos, desatentamente, pensam que a
regra inexiste ou é muito frágil; outros, às vezes por má fé, reproduzem
e dão força a esse engano.
(4) Devemos lembrar que a renda per capita
familiar de quase metade das crianças e adolescentes entre zero e 17
anos, segundo dados de vários PNADs, é inferior a meio salário mínimo.
Se considerarmos que grande parte da renda familiar é gasta com moradia,
alimentação, energia elétrica e outras despesas inescapáveis, o que
resta para as outras despesas é extremamente baixo. Assim, uma simples
passagem de ônibus adicional por dia, um pequeno lanche ou qualquer
outra despesa associada à frequência escolar podem estar totalmente fora
do alcance familiar. Nos segmentos mais favorecidos, muitas dessas
despesas podem passar despercebidas, mas, para os segmentos mais
desfavorecidos, elas são insuportavelmente altas.
* Otaviano Helene
é professor no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e
foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.
(Correio da Cidadania)
http://envolverde.com.br/educacao/artigo-educacao/sistema-educacional-e-um-importante-instrumento-a-perpetuar-a-desigualdade/
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